Introdução

                               

A incapacidade reprodutiva de um casal, contrariando o seu “instinto procriativo” e impossibilitando a sua continuidade biológica, tem sido uma perspectiva, muitas vezes concretizada, que tem acompanhado todas as gerações desde os primórdios da História. Ao longo desta, se a fertilidade sempre foi fundamental para a sobrevivência das populações e, por isso, socialmente aceite e encorajada, a infertilidade era, pelo contrário, considerada como uma doença vergonhosa, até mesmo uma maldição dos deuses, que era necessário conjurar com rituais religiosos e mágicos, sendo a mulher quem, em regra, era inculpada e muitas vezes desprezada, odiada e maltratada pela circunstância de não ter filhos.

A infertilidade conjugal, definível como a ausência de gravidez após um ano de actividade sexual regular sem qualquer prática contraceptiva, é uma realidade crescente, envolvendo cerca de 15% dos casais em idade procriativa.

 

Do ponto de vista médico, a infertilidade é uma situação única, na qual cada membro do casal integra uma “unidade infértil”, e é esta unidade que deve ser estudada e tratada. Na realidade, os factores de causa masculina e feminina distribuem-se em partes semelhantes, do que resulta que o diagnóstico de uma eventual causa da infertilidade num dos membros do casal não deve excluir o estudo pormenorizado do outro.

O estudo do casal infértil tem como objectivos fundamentais identificar estes factores de infertilidade, estabelecer um prognóstico e definir a metodologia terapêutica mais adequada, devendo os casais ser informados de que, apesar dos enormes avanços científicos e técnicos, não é possível diagnosticar a causa em cerca de 10% dos casos, permanecendo um longo e árduo caminho para que os múltiplos factores que podem resultar em infertilidade sejam integralmente conhecidos, compreendidos e vencidos.

O espectacular avanço das ciências médicas tem permitido que muito se conheça sobre o complexo processo da reprodução, embora a esperança, o entusiasmo e o aplauso despertados por esta evolução sejam muitas vezes seguidos de uma grande decepção e tristeza, envolvendo doentes e médicos, perante o insucesso da terapêutica realizada, mesmo após a aplicação de toda a panóplia tecnológica.

Todavia, é indiscutível que existe uma capacidade de intervenção progressivamente maior, que veio permitir criar legítimas expectativas de gravidez em muitos casais que, anteriormente, só teriam uma solução reprodutiva no domínio do “milagre biológico”.

A noção inequívoca de que a excelência desta intervenção deve ser uma preocupação constante tem sido materializada pelo investimento no equipamento, investigação e qualificação dos colaboradores que integram o Centro de Genética da Reprodução (CGR), o que permitiu o pioneirismo em Portugal de algumas das técnicas mais desenvolvidas e tem contribuído para a publicação frequente de trabalhos de investigação em revistas científicas internacionais.

O objectivo deste pequeno guia é fazer um percurso simples, objectivo e rigoroso, sobre alguns aspectos de maior relevo da reprodução humana e das respectivas técnicas de procriação medicamente assistida (PMA), mas pedindo aos beneficiários destas técnicas que nunca se esqueçam que a sua situação concreta pode distinguir-se significativamente da abordagem genérica aqui desenvolvida e que esta abordagem reflecte uma posição pessoal, e de grupo, o que significa que outras metodologias podem ser igualmente correctas.

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